30 Setembro 2009

Dança


Danças ao teu ritmo, sem música.
No escuro, o bater dos corações é o que te faz vibrar sob o luar fantasma.
Ninguém te vê, ninguém sabe que aqui estás.

No movimento sensual das tuas curvas, todos te querem tocar, mas és apenas alucinação nos vapores da noite.
Queres pertencer de novo ao seu mundo, queres passar nos lugares onde o teu olhar penetra nas suas vidas e jamais te esquecem.
Invades o seu sono, provocando sonhos delirantes sem sentido. Esperam pela noite seguinte para continuar a vislumbrar-te na neblina, o teu rosto e os teus gestos insinuantes.
O teu riso de cristal fá-los transpirar por mais.
Flutuando desnuda, voltas na madrugada húmida e esperas...
Alguém irá deixar este mundo para te suplicar.

08 Março 2009

Uma rosa...


Apenas ser a rosa.

Apenas ser o sonho rodeado de espinhos, a vida com pétalas de rubi.

O verde das suas folhas, reluzente pelos fluídos da madrugada e banhado pelo sol da manhã, reflectem no teu olhar o amor eterno e efémero.

Algo estremece nos meus sentidos quando, num gesto subtil, os meus dedos acariciam as pétalas vermelhas e carnudas.

A penumbra cresce à medida que a palete de cores do crepúsculo se desvanece.

Na Terra finita e sem limites, não vemos para além do alcance dos olhos e as pétalas fecham-se no deleite da luz absorvida, com o prazer abandonado nos lençóis da luxúria.

E quando o primeiro raio romper de novo pelo jardim secreto, estarei à espera para te acolher no orvalho da madrugada.

02 Março 2009

A vós


A água corre transparente no regato, lá em baixo, na horta dos meus sonhos. Continuo a lá ir sempre que o brilho dos teus olhos azuis transforma a minha tristeza em sorrisos de infância.

A nostalgia de me sentar no teu colo e de ouvir as tuas histórias de décadas passadas, surgem nos momentos em que volto à posição fetal para me embalar nos teus braços.

Num outro mundo, estás novamente na lavoura com a enxada na mão e a marmita, que a avó te preparou, a teus pés.

O teu filho, junto a ti, esqueceu-se do futuro e vive feliz a vosso lado, protegido da angústia que o mundo lhe reservaria.

Mas nós, não nos esquecemos. Vivemos no presente a reviver o passado e a sonhar com o futuro.

Os lábios desenhados pela saudade, sorriem porque apagaram o passado turbulento, a fome, os choros e o medo.

Agora, só resta a vontade de poder voltar atrás e fazer tudo de novo, apenas para te ter por mais um momento eterno.

17 Setembro 2008

My tale


A step into the moonlight in the middle of the night.

The stars above, shinning just for me, are singing their lullaby.

I walk barefoot through the fresh grass and I smile when I listen to the whispers of the little people, hidding behind every branch.

Where are you, my never ending story? When I jump into your pages, everything seems to change and nothing is wrong. No place for emptiness.

You can find my world in that wonderful book, where every word is written in every second of my life by tiny little fingers.

Some day you will understand that every breath you take is the turning page of the tale of all times.

05 Setembro 2008

A primeira chuva


O perfume puro e inocente da primeira chuva, que tanto avivou os sonhos da minha infância, inundou-me as narinas e encheu-me a alma de nostalgia.
O cheiro da terra baptizada pela bênção dos céus, é o guia que faz a criança dar o primeiro passo na alvorada e estender a mão para alcançar o que há por descobrir e sentir.
Com a força dos braços nus e possantes, o homem volta no crepúsculo com os frutos maduros e suculentos que colheu do ventre dessa mesma terra .

Sentei-me para sentir a doce chuva no meu rosto e fechei os olhos para observar mais de perto o que o futuro me reserva. Prestes a desvendar o meu fado, a névoa do presente deixou pousar suavemente o seu véu sensual e provocador.
Nada mais saberei enquanto não descobrir dia após dia, passo após passo, as sensações de dor, de perda, de conquista, de paz...

A mente comanda o coração e este devolve-lhe ilusões.

Seguirei os teus passos, mas não serei a tua sombra.

Irei a teu lado, mas não serei o teu encosto...


Toma a minha mão na tua e ensina-me o caminho!

29 Agosto 2008

Asas....


Aprendi a desembaraçar-me sozinha no princípio dos tempos, antes da fogueira aquecer os povos nas gélidas montanhas do Norte.

À medida que o mundo mudava e as terras eram desbravadas, as asas que me protegeram, tornaram-se na minha vergonha e no meu pesadelo, à medida que o mal se apoderava da mente dos Homens. Escondi-me durante milénios. Infiltrei-me nos covis dos ladrões, fui para orfanatos com cheiro a mofo, para me juntar aos que pensava que eram como eu - rejeitados. Sempre só, sempre perdida. A civilização reconhecia-me como uma vagabunda, suja e selvagem...
Nesse dia, apareceste no meu mundo e entreguei-me à rebeldia que exalava do teu ser pulsante de novas e arriscadas aventuras.
Eras como eu...
As tuas asas, amaldiçoadas por todos os que nos renegavam, envolveram as minhas e o desejo de voar inundou-nos o espírito ansioso por descobrir. Atravessámos os céus nocturnos e o mundo era só nosso. Foi um vislumbre da felicidade!

De repente, tudo terminou...

Fomos descobertos e perseguidos pelos demónios que roubaram as asas a tantos outros como nós.

No mundo paralelo que criámos, só conseguimos sobreviver à espera da morte em cada esquina sombria, em cada beco escuro e as asas de nada nos valiam.

Decidi partir para longe... Deixar de sentir o peso dos segredos da minha existência.

Olhas-me com aquele olhar perdido e sem rumo, como se a terra tivesse fugido de debaixo dos teus pés para te deixar cair no infinito. Não quis despedir-me de ti... Vou só, até descobrires em ti a força que te fará partir também. A tua sombra não me seguiu e assim seguimos o destino, sempre a um passo à frente do nosso.

13 Julho 2008

A prova


Foi banido da alcateia. O Alfa foi para o outro mundo, onde está em conselho de Anciãos. A protecção que tinha junto do Grande desde a infância terminou e agora os outros olhavam-no com ódio, esperando por um único deslize.

Aquela predilecção criara muitas dificuldades em toda a sua vida, mas Acor sempre o tratara como o filho que perdera, o seguidor da linhagem do comando da alcateia.

Afastou-se enquanto todos descansavam. Estava decidido a deixar o grupo sem lutar e recomeçar fora do território. Talvez até encontrasse outros renegados e ser grande, sem ser a sombra de ninguém.

Partiu.
Estava prestes a sair dos domínios, quando lhes sentiu o cheiro. Ficou petrificado de medo. Retomou caminho com mais velocidade, mas os outros rapidamente o alcançaram. Perdeu o folgo e deixou-se cair.
Desfaleceu.

Quando chegaram, os olhos desvairados, uma força súbita apoderou-se dele e levantou-se. Queria lutar... Tinha esse direito.

O seu pêlo eriçou-se e arreganhou os dentes, rugindo baixinho, mas feroz.

Atiraram-se a ele, mas não encontraram o cobarde lobo, que os deixara em traição.
Um novo desafio tinha crescido dentro dele e lutou por tudo o que era.

Pedaços de carne foram arrancados do seu corpo e cego pelo sangue que jorrava, esqueceu que enfraquecia.

Acordou com uma sensação quente, estaria a caminho do Conselho de Anciãos, para junto do seu mestre?

Uma dor lancinante fê-lo esforçar-se a abrir os olhos.

Vislumbrou uns olhos quentes e suaves e o calor do bafo curativo deu-lhe a força para erguer a cabeça.
Conseguiu ver o que o rodeava.
Todos os que não tinham perecido, aguardavam o seu despertar, ansiosos por louvar o que há tanto esperavam....
A coragem do novo líder.